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Domingo, 05 Janeiro 2020 06:05

Os profetas cantavam canções populares!

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Os profetas cantavam canções populares! by Rita Marcia - Pixabay

Os profetas cantavam canções populares!

 

Introdução

Canções são uma forma muito didática de ensinar e aprender algo. Especialmente, as canções populares trazem a sabedoria do povo cantada em versos e prosa. E os profetas sabiam muito bem disso. As canções são de fácil memorização porque têm ritmo e rima, têm assonância e aliteração, são poesia e poema. E estas características das canções ajudam a fixar a sabedoria e o conhecimento, as ideias e os pensamentos, auxiliam a guardar a mensagem daquele que canta. E os profetas usaram as canções muito bem.

Os profetas cantavam canções!

Na transmissão de suas poderosas mensagens os profetas utilizavam canções como veículos de significado. Era, pelo que tudo indica, uma prática bem conhecida no período dos profetas do Antigo Testamento. Sobre essa prática de entoar canções, testemunha o profeta Ezequiel (33.30-33) ao registrar a atividade dos profetas como cantores nas seguintes palavras:

“’Vamos ver que palavra o Senhor nos envia’. Acorrem a ti em bando, e o meu povo senta diante de ti; escutam as tuas palavras, mas não as praticam; com a boca fazem elogios, mas seu ânimo anda atrás de negócio. És para eles cancioneiro de amoricos, de voz bonita e bom tocador. Escutam tuas palavras, mas não as praticam”.

Aquelas pessoas que acorrem ao profeta para ouvi-lo cantar canções, entendem, sem nenhuma dúvida, que vão para ouvir a Palavra de Deus nos lábios do profeta-cantor, digamos assim. Elas até elogiam a performance do cantador da Palavra de Adonai, mas é uma pena que não praticam o que escutaram. Parece que elas vão ao profeta apenas para se deleitarem esteticamente. Vão com os ouvidos, mas não com o coração!

É importante observar que há diversas canções, aqui e acolá, nos escritos proféticos. Há, também, certa variedade do tipos de canções que os profetas cantavam, por exemplo, canções de escárnio, canções de amor e assim por diante. Vou tratar das canções propriamente ditas em outro vídeo. Por enquanto, basta mencioná-las.

Os profetas cantavam canções populares!

Uma boa pergunta a fazermos é se os profetas compunham suas próprias canções. A resposta é: aparentemente, não! E por quê não? Pelo que sabemos dos registros bíblicos a cultura na qual os profetas profetizaram era permeada de muitas canções populares entoadas em cenários festivos, como a festa da uva, por exemplo. Chamo de “Festa da Uva” a ocasião da colheita da uva e do pisar as uvas no lagar.

O costume de cantar canções durante a festa da uva era bem estabelecido no Antigo Testamento pelo que podemos supor de Juízes 9.27 que diz assim: “Saíram ao campo para a vindima, pisaram a uva e celebraram a festa.”.

Outra voz que atesta este costume é a do profeta Isaías, que menciona o cessar da cantoria popular por ocasião da festa da uva dizendo:

“Porque morreram os refrãos de tua vindima e de tua colheita, retiram-se do jardim o prazer e a alegria; nas vinhas já não cantam jubilosos, já não pisam o vinho no lagar, os refrãos emudeceram.” Isaías 16.9 e 10

Não é forçoso dizer que o repertório musical dessas festas populares devia ser bastante variado em ritmos, quanto extenso em seus temas. E isso certamente facilitou aos profetas fazerem as melhores escolhas de canções, já que tinham ao seu dispor esse repositório popular. Por isso, quando os profetas cantavam essas canções o povo já as conhecia muito bem, podemos dizer: de cor e salteado.

Os profetas recolhiam canções populares!

Em geral, os profetas recolhiam suas canções da cultura popular. Talvez, o melhor exemplo da utilização de canções populares pelos profetas de Israel pode ser visto no livro de Isaías 5.1 a 7, a chamada “Canção da Vinha”, que provavelmente era uma das muitas canções populares da época. Este texto de Isaías é um belo exemplar de uma canção tomada da cultura popular.

Aqui cabe outra pergunta: O profeta simplesmente recolhia a canção e a reproduzia tal como ele a encontrou? Pelo que vemos na “Canção da Vinha”, em particular, e em outras canções, em geral, podemos responder que não!

Uma leitura rápida da “Canção da Vinha” mostra que o profeta escolhia uma canção popular e a relia para dentro de uma realidade espiritual totalmente diversa daquela da festa; ele a modificava, ainda que utilizasse palavras e imagens do poema original, conferindo-lhe novos significados; ele a redirecionava na sua aplicação a um outro público ao qual a canção originalmente não estava direcionada; ele a reinterpretava, enfim, de uma forma teológica absolutamente nova e distinta, atribuindo-lhe um propósito que até então a canção não tinha.

É importante dizer que no período do Antigo Testamento não havia restrições quanto ao que chamamos hoje de “direitos autorais”. Aliás, este era um conceito estranho a toda a Bíblia, se posso dizer assim. Por isso, os profetas tinham toda liberdade para recolher, modificar, adaptar, redirecionar e reinterpretar as canções populares sem nenhum prejuízo para qualquer pessoa.

A prática dos profetas de cantar canções populares permitiu a eles que elaborassem a sua própria mensagem a partir de elementos da sua cultura e do seu tempo. As canções populares tornaram-se, nos lábios dos profetas, uma Palavra de Deus para os seus ouvintes.

Como podemos ver, o que os profetas cantavam serve, de alguma forma, se não como um paradigma, o que eu acho um exagero dizer, pelo menos como material para nossa reflexão, para nosso aprofundamento, para nossa tomada de posição, obviamente que não radical, mas uma tomada de posição em relação a nossa cultura popular.

E nós, o que cantamos hoje em dia?

Hoje, a nós que temos por vocação a exposição da Palavra de Deus em meio a nossa cultura cabem algumas perguntas: Nós utilizamos elementos culturais em nossa reflexão teológica? Caso afirmativo, como nós os usamos? Canções e outros tipos de manifestações culturais, como a literatura; as artes plásticas; a escultura; a pintura; e toda a gama de produção artística, enfim, popular ou não, podem ser usadas como veículo da Teologia? Esta é uma questão que marca os limites daquilo que podemos fazer teologicamente com a cultura popular.

A pergunta crucial, afinal de contas, é se percebemos a manifestação de Deus em outras vozes que não sejam as vozes dos teólogos e dos biblistas, dos quais muitos de nós, de forma prepotente às vezes, insistimos em afirmar que Deus só se manifesta em nossos sermões e canções que consagramos a Ele.

Veja que eu não estou perguntando sobre a pertinência de usar as canções ou não. O que eu estou perguntando é sobre a legitimidade de encontrar a Palavra de Deus nessas canções populares. A pergunta de fundo é: quão profundamente a Palavra de Deus permeia ou está presente na cultura popular?

O que está em questão então, é: Até que ponto é possível, como ato interpretativo, usar essas canções em nossa vida devocional, pessoal ou coletiva, em nosso culto, em nossa liturgia etc?

Ao contrário dos profetas do Antigo Testamento, hoje precisamos lidar com as questões relativas aos direitos autorais das obras. Não podemos nos apropriar de uma canção, por exemplo, e modificar sua letra ou sua melodia. Isto seria uma violação dos direitos dos autores.

Então, de que modo podemos agir como os profetas neste caso?

Penso que nossas duas melhores alternativas são: Primeiro, tentar ouvir a voz de Deus contida nas canções, caso elas veiculem, de alguma forma, a Palavra de Deus. Para isso é necessário nos despirmos de nossos preconceitos em relação à dicotomia sagrado versus profano, pois eles nos impedem de ver a cultura como palco da atuação de Deus. Segundo, tomar as canções e, sem alterá-las, interpretá-las a partir de nossa teologia. Para isso é preciso nos vestirmos de humildade diante das múltiplas manifestações de Deus no cenário de sua criação.

Em ambas as alternativas agiremos como os profetas, isto é, tomaremos elementos da cultura popular e lhes conferiremos atributos teológicos. Devemos ter em mente, entretanto, que a Teologia enquanto tal não é única, mas é variada; nem unívoca, mas tem muitos significados.

Portanto, cabe a nós, produtores de conteúdo bíblico e teológico, zelar para que nosso ouvir a voz de Deus fora dos púlpitos e o nosso reinterpretar a cultura popular, ajude a reconciliar aquilo que, por hora, está separado, mas que, enviados em missão, trabalhamos para a reconciliação de tudo e de todos com o Pai.

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jrcristofani

José Roberto Cristofani - Casado com Cida Crema Cristofani. Pai, Pastor, Professor de Teologia. Educador, Escritor, Especialista em Educação a Distância e Doutor em Antigo Testamento.