Tatuí - SP
BLOG
Domingo, 05 Janeiro 2020 05:10

Exodus Design e a Estrutura dos Salmos 120-134 Destaque

Escrito por
Avalie este item
(0 votos)

Exodus Design

Para meu querido Professor e amigo Dr. Nelson Kilpp por ocasião do seu 70º Aniversário.

A expressão Exodus Design é utilizada neste artigo para designar o processo de pensamento que modelou a forma final da coleção dos Salmos 120 a 134, conhecida como Cânticos das Subidas1, Exodus Design serve ao propósito de revelar como essa coleção de salmos foi organizada em uma estrutura literária coerente em seu escopo e didática em seu propósito, tendo por base as narrativas do Êxodo.

O termo “Exodus”, do binômio proposto, faz referência à chamada “Tradição do Êxodo” e abarca as primeiras formulações desta tradição, não no sentido cronológico, mas em sua apresentação canônica, que tem seus inícios no livro do Êxodo e se espalha, espacial e temporalmente, por todo o Primeiro Testamento.

Exodus engloba, também, todos os desdobramentos dessa tradição que se reconhece, desde há muito, como o principal tema teológico do Primeiro Testamento. Nas palavras de Croatto,

“Impõe-se partir da experiência histórica e religiosa do Êxodo como o primeiro ‘foco’ querigmático de uma teologia da libertação. Efetivamente, é o acontecimento arquétipo e formador da consciência espiritual de Israel. A ideia de Deus e da salvação que ali se plasma é vertebral e dá coesão a todas as tradições religiosas.”[do AT, certamente].2

Por isso, quando utilizo o termo Exodus neste trabalho, não me refiro apenas ao livro, mas ao evento e todas as releituras dele advindas, as quais é possível encontrar no Primeiro e no Segundo Testamentos. “Como é bem-sabido, esse hábito de considerar o êxodo como um protótipo, como um molde no qual outras histórias de resgate da ruína podem ser modeladas, remonta à própria Bíblia.3

Na América Latina, de modo especial, a tradição do Êxodo moldou uma das mais inovadoras e consistentes teologias das décadas de sessenta e setenta, a Teologia da Libertação4. O paradigma5 do Êxodo, expresso no binômio opressão-libertação, com sua narrativa da opressão egípcia e a libertação por intervenção de Javé, passando pelo deserto rumo a uma terra que mana leite e mel, caiu como uma luva, de boxe obviamente, para iluminar os caminhos das lutas políticas e sociais no Continente.

Por isso, Exodus é mais que um livro ou evento, é uma tradição, que foi relida, reelaborada e aplicada às novas situações que, de alguma forma, se assemelhava ao evento fundante da tradição. O Êxodo é um paradigma que modelou e deu contorno para muitas narrativas de opressão e libertação. Isaías 40-55 é, talvez, o exemplar mais evidente do uso de tal paradigma. O Êxodo é, também, um script, isto é, um roteiro narrativo que se espraiou em muitas versões por toda a Bíblia Hebraica, como por exemplo, em Josué 24.2-7, 17 e Deuteronômio 26.5b-9. O Êxodo serviu, ainda, de moldura a outros textos bíblicos, como se pode ver na abertura do Decálogo, em Êxodo 20, e em diversas outras leis do Primeiro Testamento, a exemplo de Levítico 25.38 e 42 (Lei a favor dos pobres e escravos). Pode-se dizer, enfim que o Êxodo forneceu um conceito, um tema, uma estrutura (framework), um design, uma terminologia (léxico), uma memória6, um imaginário etc, que povoa toda a Bíblia.

O termo “Design”, por sua vez, usado aqui como substantivo7 e como verbo, principalmente, diz respeito ao processo de pensamento que permite criar, modelar, projetar uma entidade, literária no caso da coleção de salmos sob análise. Tal definição de design eu tomo de William R. Miller8.

Nos estudos bíblicos a palavra design, em geral, serve de complemento para o vocábulo “literário”, formando a expressão “design literário”9, que, frequentemente, se refere a uma estrutura literária específica de um livro bíblico ou às divisões e unidades dentro dele. Stibbe em Magnificent but Flawed: The Breaking of form in the fourth Gospel, por exemplo, aplica o termo “design literário” à estrutura quiástica de João 2.1 a 4.54.10

Na mesma linha de pensamento e adicionando maiores detalhes, William P. Brown escreve:

Para continuar a ler este artigo faça download do pdf clicando aqui.

Você pode baixar o livro completo clicando aqui.

______________

1 Adoto a designação “Cânticos das Subidas” (com a Bíblia de Jerusalém, TNM e TEB), não apenas porque me parece a melhor tradução de Shir Hamalaot, mas por uma questão de coerência com a proposta deste texto no qual trato do movimento dos fiéis que saem de um estado de opressão, sofrimento ou adversidade em direção a um estado de bem-estar. Algumas outras possibilidades de tradução de Shir Hamalaot são: “Cânticos de Romagem” (Almeida e Atualizada); “Cânticos dos Degraus” (Almeida Corrigida, Tradução Brasileira); “Cânticos das Peregrinações” (Nova Bíblia dos Capuchinhos); “Canção de Peregrinos” (NTLH) e “Uma canção que foi proferida nas subidas do abismo” (Targum dos Salmos – tradução de Edward M. Cook, 2001). Uma detalhada discussão sobre o assunto pode ser encontrada em Michael Douglas Goulder, The Psalms of the Return (Book V, Psalms 107-150) Studies in the Psalter, IV, Journal for the Study of the Old Testament Supplement Series 258, Sheffield, Sheffield Academic Press, 1998.

2 José Severino Croatto, “Liberación” y Libertad: Reflexiones hermenéuticas en torno al Antiguo Testamento, Revista Bíblica, Vol. 33, nº 1, 1971, p. 4.

3 David Daube, The Exodus Pattern in the Bible, London, Faber & Faber, 1963, p. 11.

4 Para uma visão geral das diversas “Teologias” da Libertação, análises e críticas veja: Christopher Rowland (Ed.), The Cambridge Companion to Liberation Theology, Cambridge, Cambridge University Press, 1999.

5 Pode-se falar, com exatidão, de uma “Hermenêutica da Libertação”. Veja a obra de Alejandro F. Botta and Pablo R. Andiñach (Eds.), The Bible and the Hermeneutics of Liberation, Atlanta, Society of Biblical Literature, 2009.

6 Ronald Hendel, The Exodus in Biblical Memory, Journal of Biblical Literature, Vol. 120, Nº 4, 2001, pp. 601-622.

7 Normalmente usa-se “design” como um substantivo, por exemplo, Robert Alter and Frank Kermode, The literary guide to the Bible. Cambridge, Harvard University Press, 1990, “design concêntrico” (p. 39); “design formal” (p. 40), “mostra um design ABXB'A'”(p. 51); “design do livro como um todo” (p. 194); “design formal da poesia” (p. 261, nota 2), referindo-se ao produto acabado. Como verbo, design se refere a um processo de criação de uma entidade, neste contexto, literária.

8 William R. Miller, Geo-Spatial Design, 2008. In: Specialist Meeting on Spatial Concepts in GIS and Design, December 15-16, 2008. “Design is the thought process comprising the creation of an entity”, p. 13.

9 R. Alan Culpepper, The Anatomy of the Fourth Gospel: A Study in Literary Design. Philadelphia, Fortress, 1983, parece ter sido o pioneiro nesta área de estudos.

10 Mark Stibbe, Magnificent but Flawed: The Breaking of form in the fourth Gospel, In: Tom Thatcher and Stephen D. Moore (Eds.), Anatomies of Narrative Criticism: The Past, Present, and Futures of the fourth Gospel as Literature. Atlanta, Society of Biblical Literature, 2008, pp. 151-152. Na página 168 literalmente se lê “structure or design”. Wilhelmus Johannes Cornelis Weren, Studies in Matthew's Gospel: literary design, intertextuality, and social setting, Leiden, Brill, 2014, utiliza a expressão “Literary design” como sinônimo de “intertextualidade”, e diz que “Isto significa que o foco aqui recai sobre as relações ‘dentro’ do texto.”, p. 3.

 

Ler 422 vezes Última modificação em Domingo, 05 Janeiro 2020 06:05
jrcristofani

José Roberto Cristofani - Casado com Cida Crema Cristofani. Pai, Pastor, Professor de Teologia. Educador, Escritor, Especialista em Educação a Distância e Doutor em Antigo Testamento.

Busca

Posts Recentes